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Benefícios da biodiversidade: rizipiscicultura na China
Fonte: Allianz, Ago/2011 (http://sustentabilidade.allianz.com.br)

Notícias - 1º de agosto de 2011

A China reavivou uma tradição de 2.000 anos: a criação de peixes nos arrozais, aumentando a produção e a renda das propriedades e, ao mesmo tempo, preservando a biodiversidade, reduzindo o uso de agroquímicos e combatendo a malária.

Diga a um inglês que ele poderá obter tanto peixe como batatas a partir do mesmo pedaço de terra, e ele lhe dirá que você perdeu completamente o juízo.

Mas é isso que os chineses e outros povos asiáticos têm feito há séculos – ainda que seja peixe e arroz, em vez de peixe e batatas, essa associação entre agricultura e aquacultura é uma rara história de sucesso da biodiversidade.

A rizipiscicultura é "a epítome da abordagem ecossistemática", a qual gera "benefícios ecoambientais e desenvolvimento sustentável", afirma a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (Food and Agriculture Organization - FAO) em um relatório de 2009 do pesquisador Miao Weimin.

Combinação perfeita
O paraíso na terra, para os antigos chineses, era um lugar que dava arroz em abundância e peixe.

Muito engenhosos, eles passaram a associar esses dois itens básicos da dieta chinesa, colocando filhotes de carpa nos arrozais durante o plantio das mudas de arroz. Na hora da colheita, os peixes estavam prontos para ir para a panela.

Essa combinação entre a rizicultura e a piscicultura na China remonta a 2.000 anos atrás.

Porém, nas décadas de 1960 e 1970, a Revolução Verde varreu a Ásia, trazendo consigo um plantio mais intensivo de arroz, empregando grandes quantidades de fertilizantes, herbicidas e pesticidas – todos tóxicos para os peixes. Assim a rizipiscicultura entrou em declínio nesse período.

O governo reabilitou essa prática nos anos 80 e 90 e a área dedicada à rizipiscicultura passou de 648.000 hectares em 1985 para 1,55 milhão de hectares em 2007, enquanto a produção de peixe saltou de 81.700 toneladas para 1,16 milhão de toneladas, segundo a FAO.

Hoje a China obtém mais produtos pesqueiros com a piscicultura do que com a pesca no mar, e a rizipiscicultura contribui com mais de 25% do volume total de pescado. E há maior variedade de peixes também. Às espécies tradicionais, como carpa e tilápia, vieram juntar-se outras altamente valorizadas, como enguias, crustáceos e camarões de água doce.

Rizipiscicultura a partir do zero
Como isso funciona na prática?

Os agricultores cavam valas junto às margens e atravessando os arrozais. A terra escavada é usada para erguer ainda mais as bordas em torno dos campos de arroz alagadiços, impedindo que a água ou os peixes escapem.

Nessas margens reforçadas, pode-se plantar outras lavouras, como soja, linhaça ou capins, que podem ser usados para alimentar os peixes. Um dos alimentos mais populares é uma alga aquática (Anabaena) que cresce rapidamente em solos alagados e ainda cumpre o papel de fertilizante nitrogenado orgânico.

As valas servem de refúgio para os peixes durante o plantio do arroz e na época da colheita, quando os níveis de água estão baixos, mas elas também são úteis para manter os peixes afastados das mudas de arroz logo após o plantio.

No início do ciclo de cultivo do arroz, o campo é alagado. Os agricultores semeiam as mudas e soltam filhotes de peixe nas valas. Quando as mudas estão enraizadas, libera-se o acesso aos arrozais, onde os peixes crescem até a época da colheita. Aí a água é drenada e os peixes são coletados.

Esse sistema de rizipiscicultura pode produzir de 300 a 900 kg de peixe por hectare ou 300 a 750 kg de crustáceos por hectare.

Os peixes não comem o arroz?
Para impedir que os peixes mordisquem as mudas ainda jovens, os agricultores alimentam os peixes com grama verde e outros alimentos. Porém, os campos fornecem aos peixes muitos outros recursos alimentares, incluindo alguns de que os agricultores ficam contentes em se livrar.

Os peixes comem pragas, como a broca do colmo e a lagarta da folha do arroz, portanto eles reduzem a necessidade de pesticidas. Além disso, eles também comem ervas daninhas que infestam os arrozais, folhas doentes e até bactérias, como a que provoca a queima das bainhas no arroz, e isso faz com que o uso de herbicidas seja menor.

Adicionalmente, ao ingerir toda essa biomassa, os peixes ajudam a diminuir as emissões de metano resultantes da decomposição vegetal em até 30%, em comparação com a rizicultura convencional.

Obviamente, toda essa oferta de alimento gratuito significa que o agricultor gasta menos tempo e dinheiro do que se fosse cultivar ou comprar alimento suplementar para os peixes. Depois de comer, os peixes expelem um rico fertilizante orgânico, o que reduz a necessidade de fertilizantes à base de petroquímicos.

Em suma, os peixes não só protegem a saúde do arroz, mas a saúde humana também. Os peixes comem larvas de mosquito, e um estudo feito em uma vila na província de Guangxi mostrou que a expansão da rizipiscicultura correspondia a um declínio nos casos de malária.

Mas isso é rentável?
O Partido Comunista apoiava a rizipiscicultura para tornar os agricultores mais ricos. O governo de Pequim tencionava aumentar a prosperidade na área rural para fixar a população na terra e conter o fluxo desestabilizador da migração urbana.

Segundo a FAO, essa medida funcionou. "A renda de cerca de 2 a 3 milhões de famílias rurais teve melhora significativa por meio da rizipiscicultura na China", diz Miao Weimin, e informa que o rendimento líquido da rizipiscicultura é de 2 mil a 4 mil dólares por hectare.

A renda extra não se deve somente ao fato de se ter mais peixes de alto valor, como crustáceos e outras espécies valorizadas, que obtêm preços 3 a 5 vezes maiores que o preço das carpas.

A produção de arroz também melhorou, embora o espaço das valas para peixes possa ocupar até 15% da superfície do arrozal.

O arroz originário da rizipiscicultura em geral é de melhor qualidade também: é um arroz orgânico que é mais valorizado pelos consumidores chineses exigentes. Assim, a renda do agricultor pode aumentar de 2 a 4 vezes em comparação com o plantio em esquema de monocultura.

O que era uma cultura de subsistência transfornou-se em uma produção de alimento orgânico que melhora a biodiversidade e conserva um ecossistema de simbiose entre o arroz e os peixes.

Contudo, o cultivo do arroz combinado com a criação de peixes enfrenta desafios.

Essa prática depende de um suprimento de água de boa qualidade, e a China é notória por suas vias aquáticas poluídas. A China também enfrenta um futuro propenso a estiagens, especialmente na bacia do rio Yang-tsé, onde a rizipiscicultura é amplamente praticada.

Outro aspecto é que poucos rizipiscicultores estão seguindo as melhores práticas ambientalmente corretas acima descritas. São necessários esquemas de certificação orgânica mais estritos, bem como uma melhor educação e uma formação mais amplamente disseminadas.

Isso é especialmente verdadeiro se, ao que tudo indica, a rizipiscicultura continuar se espalhando. Atualmente, apenas 15% da superfície disponível na China é usada para o cultivo de arroz associado à criação de peixes.

Olhando mais adiante, o potencial no resto da Ásia é imenso, com cerca de 140 milhões de hectares – quase 90% do total mundial – dedicados ao cultivo de arroz. Filipinas, Bangladesh, Índia e Tailândia estão entre os outros países asiáticos que estão retomando ou explorando a rizipiscicultura.

O sucesso ou o fracasso deles poderá ter enormes consequências para a futura segurança alimentar, a mitigação da pobreza, a presevação da biodiversidade e a saúde humana.

http://sustentabilidade.allianz.com.br/?1503/beneficios-da-biodiversidade-rizipiscicultura-na-china





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