B. Inst. Pesca, São Paulo, 43(4): 474 - 486, 2017
Doi: 10.20950/1678-2305.2017v43n4p474
A PESCA DA DOURADA Brachyplatystoma rousseauxii (CASTELNAU, 1855) NA REGIÃO
DO BAIXO AMAZONAS, BRASIL
Rivetla Édipo Araújo CRUZ
1
, Victoria Judith ISAAC
1
, Eduardo Tavares PAES
2
Artigo Cientíco: Recebido em 08/04/2017; Aprovado em 25/08/2017
1
Universidade Federal do Pará – UFPA, Laboratório de Biologia Pesqueira e Manejo de Recursos Aquáticos, Av. Perimetral, 2651, CEP 66077-
830, Terra-Firme Montese, Belém-PA, Brasil. E-mail: araujo.edipo@gmail.com (autor correspondente)
2
Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA, Laboratório de Ecologia Marinha e Oceanograa Pesqueira da Amazônia, Av. Perimetral
2501, CEP: 66077-830, Terra-Firme Montese, Belém, PA, Brasil.
THE FISHING OF GILDED CATFISH Brachyplatystoma rousseauxii (CASTELNAU, 1855) IN
THE LOWER AMAZON, BRAZIL
ABSTRACT
Gilded catsh Brachyplatystoma rousseauxii (Castelnau, 1855) is a heavily exploited Amazon Basin
shing resource without management measures till nowadays. Thus, present research aims to
describe the shing Gilded catsh dynamics in the Lower Amazon, analyzing Santarém-PA sh
landings. A total of 14,428 shing landings were recorded, from January 1993 to December 2003,
with a total production of 3,413 tonnes. The gilded catsh caught mainly in the river channels
by motorized vessels with ice storage. The main gear used are gillnets driftnet through ‘bubuia’
technique. The catch per unit effort was 13.80 Kg/sher*day. The average price of rst sale ranged
from R$ 2.40 to R$ 6.20 per Kg. The shing of gilded catsh (B. rousseauxii) presents a seasonal
pattern associated with the hydrological cycle, where the reduction in the level of the river include
the period of harvest. This research highlighted regional importance of this shing resource in an
era of increasing food security and human nutritional concerns, especially in developing countries.
Key words: artisanal shery; catsh; shing dynamics; Amazon
RESUMO
A dourada Brachyplatystoma rousseauxii (Castelnau,1855) é um recurso pesqueiro muito explotado
na região Amazônica e que não possui nenhuma regulação atualmente. O presente trabalho
tem como objetivo descrever a dinâmica da pesca da dourada no Baixo Amazonas, analisando
os desembarques pesqueiros no município de Santarém-PA. No período de janeiro de 1993 a
dezembro de 2003 foram registradas 14.428 viagens de pesca, totalizando uma produção de 3.413
toneladas de pescado. A captura da dourada é praticada, principalmente, nos canais dos rios, com
barcos motorizados e equipados com urnas de gelos. A principal arte de pesca utilizada é a rede
de emalhe, com destaque para a “bubuia”, rede de emalhe usada a meia água, colocada à deriva
no canal do rio. A captura por unidade de esforço (CPUE) estimada para a pesca desembarcada
pelos barcos pescadores atuando com “bubuia” foi de 13,80 kg/pescador*dia. O preço médio de
primeira comercialização do quilo da dourada desembarcada variou de R$ 2,40 a R$ 6,20. A pesca
da dourada (B. rousseauxii) apresenta um padrão sazonal associado ao ciclo hidrológico, no qual
os meses de redução do nível do rio correspondem ao período de safra. Este estudo demonstra
a importância desse recurso para a região e vem contribuir como subsídio para um futuro
ordenamento pesqueiro e manejo da espécie, que hoje em dia não possui nenhuma regulamentação.
Palavras-chave: pesca artesanal; bagre; dinâmica pesqueira; amazônia
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INTRODUÇÃO
A Amazônia é considerada de grande importância
no contexto da pesca continental extrativa, por
apresentar a maior diversidade de peixes de água
doce do mundo (LOWE-MCCONELL, 1999; SANTOS
e SANTOS, 2005), sendo composta por cerca de 2.400
espécies (REIS et al., 2016). Entretanto, a produção
pesqueira está voltada para apenas um pequeno
número de espécies (BARTHEM e FABRÉ, 2004;
SANTOS e SANTOS, 2005; BATISTA et al., 2012a),
com destaque para a dourada Brachyplatystoma
rousseauxii (Castelnau, 1855), uma das principais
espécies capturadas na Amazônia brasileira
(BARTHEM e FABRÉ, 2004).
Brachyplatystoma rousseauxii é uma espécie
da família Pimelodidae, pertencente à ordem
Siluriformes, e apresenta comportamento migratório
de longas distâncias (BARTHEM e GOULDING, 1997).
A distribuição dessa espécie abrange os territórios de
sete países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana
Francesa, Peru e Venezuela (REIS et al., 2003). Na bacia
amazônica pode ser encontrada desde as cabeceiras,
como rio Negro, Madeira, Purus, Juruá, Napo,
Japurá e Branco, até as águas de baixa salinidade
da foz amazônica (região estuarina) (BARTHEM e
GOULDING, 1997; FABRÉ et al., 2000; GOULDING
et al., 2003).
A pescaria desse pimelodídeo caracteriza-se como
difusa, por ocorrer em lagos e rios ao longo de toda
a bacia hidrográfica e ter seus desembarques em
locais e espaços diversos, às vezes longe dos centros
urbanos. Sua importância nas pescarias comerciais vai
desde os Andes até a região estuarina (BARTHEM e
GOULDING, 1997; BARTHEM e GOULDING, 2007),
destacando-se principalmente no Brasil, Colômbia e
Peru (BARTHEM e GOULDING, 1997; GALLO, 2000;
FABRÉ et al., 2000). A produção de dourada representa
mais de 18% do total de siluriformes comercializados
na referida Bacia (BATISTA et al., 2012b).
No Baixo Amazonas, uma grande variedade de
espécies é explorada, porém a dourada ocupou o
segundo lugar, após o mapará (Hypophthalmus spp),
nos desembarques da região no período de 1992 a
2003. Grandes cardumes de dourada são capturados,
principalmente de agosto a outubro (BARTHEM e
GOULDING, 2007).
Os estudos que analisam a evolução da produção
pesqueira na Amazônia e os fatores que afetam
os rendimentos são muito incipientes. Isto porque
as estatísticas oficiais de produção pesqueira são
descontínuas e limitadas temporal e espacialmente
(BARTHEM, 2000; ISAAC et al., 2000; BARTHEM e
FABRÉ, 2004; GONÇALVES e BATISTA, 2008). A
falta de estudos remete também às características
peculiares da pesca de pequena escala, exercida na
maior parte das vezes informalmente por um grande
número de pescadores, que exploram amplas áreas
utilizando modalidades de pesca muito variadas e
que desembarcam em pequenos locais, às vezes de
difícil acesso (McCLANAHAN et al., 2009; NAVY e
BHATTARAI, 2009; HALLWAS et al., 2011). Contudo
estas informações são importantes para subsidiar
ações de manejo dos recursos.
O presente trabalho tem como objetivo descrever
a pesca da dourada, Brachyplatystoma rousseauxii,
analisando a dinâmica da produção pesqueira
desembarcada no município de Santarém-PA, através
de uma série histórica e contínua de dados. Com isso,
pretende-se que o estudo sirva como subsídio para
um ordenamento pesqueiro da espécie, respondendo
a questionamentos sobre quais os fatores que regulam
sua captura na região e, assim, contribuindo para
proporcionar condições para uma exploração
sustentável da espécie.
MATERIAL E MÉTODOS
Área de estudo
A região do Baixo Amazonas estende-se na calha
principal do rio Amazonas, desde o município de
Parintins-AM até o município de Almeirim-PA.
Nessa região, o rio é largo e apresenta lagos de
várze extensos e rasos. O nível do rio apresenta
variação anual de aproximadamente sete metros,
promovendo ampla área de inundação nas suas
margens nos períodos de maior pluviosidade
(BARTHEM e GOULDING, 2007). Os ambientes
fluviais e as áreas de inundação são bastante
explorados pelas embarcações pesqueiras artesanais
que desembarcaram nos portos de Santarém
(BATISTA et al., 2012c).
O município de Santarém-PA, onde foram
realizadas as coletas para este trabalho, está
localizado na conuência do rio Tapajós com o rio
Amazonas (02º26’ S; 54º42’ W) (Figura 1), possui uma
população de aproximadamente 294.580 habitantes
(IBGE, 2010), compreende uma área de 22.887,08 km
2
e apresenta 6.506 pescadores, segundo o Registro
Geral da Atividade Pesqueira - RGP (MAPA, 2016).
CRUZ et al.
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Figura 1. Mapa da região do Baixo Amazonas que se estende do município de Parintins - AM até o município de
Almeirim – PA. Elaborado por Daniela Barros.
Dados e análises
Os dados de desembarque pesqueiro são
provenientes dos projetos IARA/IBAMA e ProVárzea/
IBAMA. As coletas de pescado foram realizadas no
período de janeiro de 1993 a dezembro de 2003.
O monitoramento da produção pesqueira foi
executado diariamente, de segunda a sábado, por
coletores dispostos nos portos de desembarques da
cidade de Santarém-PA, que entrevistavam todos os
pescadores que ali aportavam. As informações sobre
o tipo de embarcação, ambiente de pesca, número de
pescadores, dias de pesca, aparelho de pesca, captura
por espécie (kg) e preço de primeira comercialização
(R$) eram recebidas e anotadas em formulário
individual, aplicado junto aos responsáveis pelas
embarcações. Sendo assim, cada formulário registrado
equivale a uma viagem de pesca/desembarque.
As artes de pesca foram reunidas em quatro grupos,
de acordo com ISAAC et al. (2004) (Tabela 1).
Aos dados de captura, esforço e economia foram
aplicadas estatísticas descritivas. Antes de serem
efetuadas as análises com o preço médio e receita
bruta, os dados de janeiro de 1993 a junho de 1994
sofreram conversão de moeda, para a transformação de
Cruzeiro para Real. Para eliminar o efeito da inação
sobre os valores pagos na comercialização e permitir
uma análise comparativa desses preços, utilizou-se a
correção do Índice Geral de Preços - Disponibilidade
Interna (IGP-DI) da Fundação Getúlio Vargas, tomando
como a base o mês de maio de 2016 (http://www.
portalbrasil.net/igp.htm).
A produtividade pesqueira total e por mês foi
avaliada a partir da estimativa da captura por unidade
de esforço-(CPUE), de acordo com a equação 2 de
PETRERE Jr et al. (2010), dividindo o total capturado
(em kg) pelo esforço (pescador*dias de pesca),
considerando que a variância deste estimador é
proporcional ao esforço pesqueiro.
Para a análise da produtividade das pescarias foram
selecionadas apenas as viagens com barco motorizado
e com tripulação própria (barcos pescadores) operando
com rede de emalhe à deriva (“bubuia”) e nas quais a
dourada (B. rousseauxii) estava presente representando
mais de 40% do total capturado. Para comparações
estatísticas, os dados de CPUE foram transformados em
Log (x+1) para atingir os pressupostos de normalidade
e homocedasticidade. Desta forma, a m de vericar
diferenças significativas na CPUE média entre
ambiente de pesca e meses do ano, realizou-se análise
de variância (two way). O teste foi realizado para um
nível de signicância de 5%.
Para relacionar o volume das capturas com o ciclo
hidrológico, utilizaram-se os dados da cota mensal
do nível do rio Amazonas obtidos no site da Agência
Nacional de Águas (ANA) (HidroWeb). Com base
nas médias mensais da cota do rio entre os anos
de 1993 e 2003 na área de estudo, deniram-se os
seguintes períodos hidrológicos: enchente (janeiro,
fevereiro e março), cheia (abril, maio e junho), vazante
(julho, agosto e setembro) e seca (outubro, novembro
e dezembro).
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RESULTADOS
Produção total desembarcada e esforço de pesca
No período de janeiro de 1993 a dezembro de
2013 foi registrado um total de 14.428 desembarques
de dourada na cidade de Santarém-PA. A produção
total desembarcada foi de 3.413 toneladas (t), com
média total por viagem de 0,24±0,62 t. O esforço
acumulado destas viagens em todo período do
estudo resultou em 70.755 dias de pesca e 74.495
homens pescando. Em média, de cada viagem de
pesca participaram 5,16 pescadores (desvio padrão =
5,14), os quais permaneceram pescando por 4,9 dias
(desvio padrão = 3,72).
A captura da dourada apresentou caráter sazonal,
estando fortemente associada ao ciclo hidrológico.
Os maiores volumes de desembarques ocorreram
nos meses de agosto, setembro e outubro, que
correspondem ao período de vazante e seca. A
produção diminui a partir do aumento do nível do
rio, ou seja, nos meses de enchente e cheia.
Grupo Aparelho/arte de pesca Descrição
Redes de emalhe
Malhadeira
Miqueira
Bubuia
Rede retangular construída em náilon
multilamento de malhas variadas.
Rede retangular construída em náilon
multilamento de malhas variadas.
Rede malhadeira longa e alta, usada a
meia água, colocada à deriva no canal do
rio. Duas boias auxiliam na localização
da rede na superfície.
Linhas
Caniço, linha de mão, rapazinho
Espinhel
Linha de náilon comprida, com um
anzol na ponta, utilizada na mão,
amarrada à vara de madeira ou presa a
ponto xo na margem.
Linha principal forte e longa da qual
pendem linhas curtas com anzol na
ponta.
Redes de lance
Rede de lance
Tarrafa
Rede malhadeira utilizada em forma de
cerco.
Rede cônica de malha pequena e com
bordas chumbadas
Artes de sgar
Zagaia
Arpão
Flecha
Haste de madeira com tridente na ponta.
Haste de madeira com ponta metálica
aada.
Flecha de madeira com ponta metálica
disparada com arco ou pistola metálica
Tabela 1 . Tipos de artes de pesca utilizadas em pescarias no Baixo Amazonas. Adaptado de ISAAC et al., 2004.