B. Inst. Pesca, São Paulo, 43(2): 152 - 163, 2017
Doi: 10.20950/1678-2305.2017v43n2p152
BIOLOGIA POPULACIONAL DA CARAPEBA LISTRADA, Eugerres brasilianus
(CUVIER, 1830), PRÓXIMO À FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO (BRASIL)
Mariana Lins RODRIGUES
1*
, Robson Batista dos SANTOS
2
, Eduardo Jorge de Santana SANTOS
3
,
Simone Moreira PEREIRA
3
, Alexandre OLIVEIRA
4
, Emerson Carlos SOARES
5
Artigo Cientíco: Recebido em 16/03/2016; Aprovado em 17/02/2017
1
Universidade Estadual do Oeste do Paraná. PPG Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca Rua da Faculdade, 645 - Cx. P. 320 - Jd. Santa
Maria - Toledo – PR. E-mail: lins.mariana@hotmail.com (autor correspondente).
2
Depaq - Departamento de Pesca e Aquicultura, Universidade Federal Rural de Pernambuco.
3
Engenheiro de Pesca.
4
Professor Associado –Unidade Educacional Penedo, Universidade Federal de Alagoas.
5
Professor Associado –Centro de Ciências Agrárias Maceió, Universidade Federal de Alagoas.
POPULATIONAL BIOLOGY OF BRAZILIAN MOJARRA Eugerres brasilianus (CUVIER, 1830)
NEXT TO THE SÃO FRANCISCO RIVER MOUTH (BRAZIL)
ABSTRACT
Eugerres brasilianus is one of the main marketable species in Northeastern Brazil and in the lower
São Francisco River. The objective of this study was to evaluate the population structure of this
species in the region. Fish were collected monthly through gillnet from May to December 2013.
About 80% of 95 individuals captured were females ranging between the classes 17.0 - 29.0 cm of
standard length. The weight/length ratio in females and males during the rainy and dry seasons
presented a negative allometric type of growth. Gonadal maturation stages varied from B (under
maturation) to C (mature) for females during the rainy season, indicating reproductive activity, a
fact conrmed by the gonadosomatic index and the condition factor K, whose values were superior
in females (p> 0.05). The results indicate that the species development may be related to the pre-
reproductive period, because the growth in length was greater than in weight.
Key words: estuary; diadromous sh; growth; negative allometry.
RESUMO
Eugerres brasilianus é uma das principais espécies de peixe comerciais no Nordeste do Brasil e no
baixo rio São Francisco. O objetivo deste estudo foi avaliar a estrutura populacional da espécie na
região. Os peixes foram coletados mensalmente com rede de emalhe, entre maio e dezembro de
2013. De 95 indivíduos capturados, 80% eram fêmeas com comprimento padrão oscilando entre
as classes de 17,0 cm e 29,0 cm. A relação peso/comprimento em fêmeas e machos durante os
períodos de chuva e estiagem evidenciou crescimento do tipo alométrico negativo. Os estágios
de maturação gonadal variaram de B (em maturação) a C (maduro) para as fêmeas durante o
período chuvoso, indicando atividade reprodutiva, fato conrmado pelo índice gonadossomático
e pelo fator de condição (K), cujos valores foram superiores nas fêmeas (p>0,05). Os resultados
indicam que o desenvolvimento da espécie pode estar relacionado ao período pré-reprodutivo,
pois o crescimento em comprimento foi maior que em peso.
Palavras chave: estuário; peixe diádromo; crescimento; alometria negativa.
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INTRODUÇÃO
Os peixes compõem os mais variados níveis
trócos dos ecossistemas aquáticos (ROSA e LIMA,
2005), apresentando grande importância econômica
para a pesca tradicional ou industrial. A ordem
Perciformes agrupa 160 famílias e mais de 10.000
espécies, e constitui a maior e mais diversicada
entre os vertebrados, na qual seus representantes são
dominantes tanto em ambientes marinhos, como em
água doce (NELSON, 2006).
Espécies da família Gerreidae distribuem-se no
Oceano Atlântico Ocidental desde a Carolina do
Sul, nos EUA, passando pelo nordeste brasileiro,
até Santa Catarina, região Sul do país (FLOETER et
al., 2003). Constituem um dos mais importantes e
abundantes recursos demersais em lagoas costeiras
tropicais e subtropicais (SANTOS e ROCHA, 2007),
alimentando-se de invertebrados bentônicos e
plantas (DENADAI et al., 2012). Os gerreídeos,
conhecidos como “carapebas”, constituem uma
família de perciformes com grande importância na
pesca artesanal, comercial e esportiva, sendo bem
apreciados na região Nordeste do Brasil para o
consumo humano (BEZERRA et al., 2001). A região
do baixo curso do rio São Francisco destaca-se por ser
uma área de grande riqueza biológica e importância
para a pesca artesanal (OLIVEIRA, 2009). Dentre
as espécies de importância econômica para a pesca
artesanal presentes nesta região, Eugerres brasilianus
(Cuvier, 1830), ou “carapeba listrada”, caracteriza-
se por apresentar comportamento diádromo, sendo
encontrada em ambientes marinhos e estuarinos e em
manguezais (SOARES et al., 2011; RANGELY et al.,
2010; BARBANTI et al., 2013; MENDES et al., 2016;
OLIVEIRA et al., 2015; RAMOS et al., 2016; VAZ-DOS-
SANTOS e GRIS, 2016).
Entre os principais entraves para a avaliação
da conservação ictiológica estão a falta de dados
populacionais e a deciência de informações sobre
aspectos biológicos gerais e pesqueiros para a maioria
das espécies, dados esses que possam ser diretamente
aplicados à proteção e administração destes recursos
(ROSA e LIMA, 2005).
O presente trabalho teve como objetivo caracterizar
a morfologia e o crescimento de Eugerres brasilianus
na região da foz do rio São Francisco.
MATERIAL E MÉTODOS
Caracterização da área de estudo
A área de estudo está localizada próximo à foz
do rio São Francisco, entre o Ponto 1 (10º27’41,7’’S;
36º26’13,5’’W) e o Ponto 2 (10º23’45,1’’S;
36º28’05,2’’W), situados às margens pertencentes
aos estados de Sergipe e Alagoas, respectivamente
(Figura 1).
Figura 1. Área de coleta de Eugerres brasilianus, localizada próximo à foz do rio São
Francisco.
RODRIGUES et al.
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A região é caracterizada por apresentar clima
subúmido com médias anuais de temperatura
de 25°C e precipitação anual variando de 1.300 a
500 mm (BRASIL. MMA, 2003). As características
físicas e naturais da bacia hidrográca apresentam
grande variabilidade temporal. O período chuvoso
está compreendido entre os meses de abril e julho,
enquanto o período seco, entre outubro e janeiro.
Assim, os meses de agosto e setembro correspondem
à transição do período chuvoso para o período seco
nesta região (WANDERLEY, 2012). Em razão de os
pontos de estudo estarem localizados na mesma área,
situada no baixo estuário, as análises de dados dos
dois pontos foram realizadas em conjunto.
Coleta de material biológico
Durante o período de maio a dezembro de 2013,
compreendendo os períodos de chuva (maio a
agosto) e estiagem (setembro a dezembro), foram
realizadas coletas de exemplares com o auxílio de
rede de emalhar de deriva, com tamanho de malha
de 45 mm entre nós opostos, aproximadamente 300
metros de comprimento e 1,5 metro de altura.
Na escolha do apetrecho utilizado para captura
das carapebas, consideraram-se a hidrodinâmica da
região, o comportamento migratório e o constante
movimento natatório da espécie, correlacionando-os
com a maré. A principal característica da pesca com a
rede de emalhar é um de seus lados estar amarrado à
embarcação e a outra extremidade permanecer solta,
sendo levada pela correnteza, compreendendo uma
extensa área longitudinal e cobrindo toda a coluna
d’água até o fundo (PAIVA et al., 2008).
As amostragens, num total de 80, ocorreram no
período noturno durante a baixa-mar de quadratura,
com tempo médio de captura de 30 min entre cada
lance. Foram capturados 95 indivíduos, sendo 19
machos e 76 fêmeas, os quais foram sacricados por
tratamento térmico e posteriormente levados ao
laboratório para identicação das espécies, realizada
de acordo com MENEZES e FIGUEIREDO (1985).
Biometria e Análise de Dados
Para determinação morfométrica, todos os
exemplares foram pesados (Pt) e medidos em
relação ao comprimento padrão (Cp), altura do
corpo (Ac), comprimento da cabeça (Cc), distância
interorbital (Di) e diâmetro da órbita (Do). Em
seguida, as gônadas foram coletadas, pesadas e
acondicionadas em formol a 4%, sendo, após 24
horas, transferidas para álcool a 70% para posterior
análise macroscópica. As porcentagens das fases de
vida foram baseadas no tamanho da espécie adulta,
segundo GARCIA-ARTEAGA et al. (1997).
A proporção sexual foi determinada pelo teste
qui-quadrado não-parametríco (Χ²) a partir da
equação: Χ² = (O E)²/E, em que: O = Frequência,
em porcentagem, de machos e fêmeas por mês; E
=Proporção sexual esperada.
Para a relação Peso total/Comprimento padrão
(Pt/Cp) foi aplicado o modelo de relação peso-
comprimento, a partir da equação do tipo potencial
y=ax
b
, tendo como resultado o coeficiente de
alometria representado por b, que se relaciona com
a forma do crescimento dos indivíduos. O modelo
de regressão simples a partir da equação do tipo
potencial é amplamente utilizado em estudos da
relação peso/comprimento para crustáceos e peixes
(VAZZOLER, 1996).
A classicação dos estádios de maturação gonadal
seguiu a metodologia proposta por VAZZOLER
(1996), sendo registrados quatro estágios: A
- imaturo; B - em maturação; C - maduro e D
desovado. Para esta classicação foram observadas
características da gônada, como tamanho em relação
à cavidade abdominal, vascularização, coloração e
grau de turgidez.
Para a determinação do índice gonadossomático
(IGS), aplicou-se a seguinte equação: IGS = PG/
PC*100, em que: PG = Peso das gônadas, PC = Peso
do corpo. O grau de bem-estar dos peixes foi avaliado
pelo fator de condição (K), o qual pôde ser obtido
pela expressão K=PT/CP
b
, sendo b estimado pela
equação da relação peso-comprimento.
Os resultados obtidos para as variáveis IGS e
K, atendendo aos pressupostos de normalidade e
homocedasticidade, foram submetidos à ANOVA,
sendo as médias comparadas pelo teste de Tukey
em nível de 5% de signicância, utilizando o software
estatístico Statistica 7.0
®
.
RESULTADOS
A espécie Eugerres brasilianus (Cuvier, 1830),
coletada na foz do rio São Francisco, apresenta
como características gerais boca protáctil, corpo
alto, comprimido e de coloração prateada com
estrias longitudinais escuras, nadadeira dorsal
com espinhos e raios moles, nadadeira anal com
um espinho robusto e longo e nadadeira caudal
apresentando formato bifurcado. O dimorfismo
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sexual nesta espécie caracterizou-se pelo número
de orifícios na região ventral associado às funções
reprodutivas, bem como pelo tamanho do corpo dos
machos, que, nesta espécie, é normalmente menor
que o das fêmeas.
Tabela 1. Média e Desvio-Padrão das variáveis morfométricas de Eugerres brasilianus próximo à foz do rio São Francisco.
As variáveis morfométricas corpóreas das
fêmeas e machos de E. brasilianus não apresentaram
diferenças signicativas quando comparadas entre os
períodos de chuva (abril e julho) e estiagem (outubro
e janeiro) (Tabela 1).
Fêmea Macho
Variável Chuva Estiagem valor-P Chuva Estiagem valor-P
Altura do corpo (AC)
8,71±1,62 8,22±0,44 0,67 7,75±0,74 7,76±0,36 0,77
Diâmetro da órbita (DO)
1,80±0,20 1,77±0,37 0,19 1,60±0,16 1,52±0,12 0,08
Comprimento da cabeça (CC)
5,50±0,87 5,04±1,43 0,14 4,79±0,80 5,01±0,19 0,77
Distância interorbital (DI)
2,03±0,34 2,18±0,46 0,29 1,91±0,39 1,80±0,44 0,08
A proporção sexual em E. brasilianus diferiu
signicativamente durante o estudo, com predomínio
de fêmeas em todo o período amostral, destacando-se
os meses de setembro e novembro (Figura 2).
Figura 2. Abundância mensal de Eugerres brasilianus próximo à foz do rio S. Francisco.
Verificou-se que os indivíduos eram mais
abundantes nas classes de comprimento 15-17,0 cm
e 17-19,0 cm, dos quais, 5,2% foram considerados no
estágio juvenil e 94,7%, no estágio adulto. As classes
modais de distribuição de peso (Pt) variaram entre
130-170 g e 170-210 g, representando 59,38% dos
indivíduos capturados com pesos mínimo e máximo
de 92 g e 495 g, respectivamente (Figura 3).
Nos períodos de chuva e de estiagem ocorreu
predominância de fêmeas
em tamanho e peso
médio
(Figura 4). No período
chuvoso, as fêmeas
apresentaram 19,12±1,47 cm e 220,03±75,57 g,
enquanto os machos, 16,72±1,43 cm e 163,26±14,38
g. Já no período de estiagem, os valores encontrados
foram 18,64±2,89 cm e 208,60±91,35 g para as fêmeas
e 17,54±1,36 cm e 175,75±44,95 g para os machos.
De acordo com a relação comprimento-peso,
fêmeas
e machos apresentaram crescimento alométrico
negativo nos períodos de chuva e de estiagem
(Tabela 2).