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Bacia do rio Piracicaba comemora os 100 anos de Nelson de Souza Rodrigues, visionário na cultura e na natureza

Nelson de Souza Rodrigues: 100 anos de uma vida a favor da vida (Foto Adriano Rosa)

Com 100% de atendimento de água e esgoto, e 100% de esgoto tratado por água consumida, Piracicaba aparece em sexto lugar no ranking nacional de saneamento de 2021, do Instituto Trata Brasil. A cidade apenas não está em posição melhor, pelos critérios da organização que monitora o saneamento no país, em função de perdas na rede de água. No conjunto da bacia do rio Piracicaba, composta por 50 municípios paulistas e cinco mineiros, mais de 60% do esgoto coletado são tratados, com mais de 90% da população atendida por rede de esgotos. No Brasil, menos da metade da população tem acesso a rede de esgoto e percentual muito menor recebe tratamento.

Mas a situação privilegiada de Piracicaba e toda a bacia hidrográfica do mesmo nome em saneamento, sobretudo em termos dos avanços no tratamento de esgotos urbanos, é uma realidade recente. No início da década de 1980, menos de 5% dos esgotos urbanos eram tratados. Agravada na época por descargas de esgotos industriais e da atividade sucroalcooleira, a poluição gerava constantes mortandades de peixes e imensa revolta na população.

A mudança superlativa no panorama do saneamento em Piracicaba e região resulta de um movimento da sociedade civil deflagrado em meados da década de 1980 e que teve um nome central, no sentido de buscar ações concretas para acabar de vez com a degradação das águas do principal patrimônio natural e cultural da cidade. O nome é o do engenheiro agrônomo Nelson de Souza Rodrigues, que no próximo dia 30 de maio vai comemorar os seus 100 anos de vida na casa da família, localizada não muito longe do rio que tanto defendeu.

O centenário de Nelson de Souza Rodrigues será marcado por vários tributos por sua enorme contribuição para as políticas públicas em recursos hídricos, em São Paulo e no Brasil, mas também é o momento para o resgate de uma trajetória marcada por muitas outras realizações. Rodrigues é um artista nato e seus 100 anos também serão celebrados pelas suas atividades no campo da criação artística. Nele, cultura e natureza não estão divorciadas. Pelo contrário, estão sempre de mãos dadas.

Nelson Rodrigues e alguns equipamentos fotográficos que utilizou em sua carreira (Foto Adriano Rosa)

Das margens do Tamanduateí aos estúdios da Vera Cruz

Nelson de Souza Rodrigues nasceu em São Paulo na residência de seus avós maternos, às 0:10’ do dia 30 de maio de 1921, na Rua Deocleciana, no bairro do Bom Retiro, margem direita do rio Tamanduateí. No dia 1° de junho seu pai Francisco D’Ascenção Rodrigues fez seu registro de nascimento no 5° Cartório de Registro Civil da Santa Efigênia.

“O rio Tamanduateí sempre esteve presente em seus relatos”, conta uma das filhas, Jocelyne Martins Rodrigues. “A poucos metros da casa dos seus avós, suas primeiras pescarias, as lavadeiras pelas manhãs vindo com suas trouxas, o mato alto das margens coberto por suas roupas brancas, as carroças vindas do mercado, para descanso e saciedade da sede dos cavalos”, ela completa.

Nesse contato precoce com as águas, certamente estava o embrião do senso de observação atenta, que o acompanharia ao longo da vida, em todos os seus campos de atuação. “Seus comentários sempre estamparam o inconformismo por sua cidade natal, estabelecida no Planalto Paulista com expressiva rede fluvial, com o potencial hídrico de três volumosos rios, o Tietê, o Pinheiros e o Tamanduateí, além de todos afluentes, córregos, riachos e nascentes, ter chegado no sério enfrentamento de falta d’água cada vez mais complicado”, resume a filha.

Nelson e algumas fotos de filmes que produziu para a Vera Cruz (Foto Acervo Pessoal Nelson de Souza Rodrigues)

Uma atividade pouco conhecida do público em geral, na vida de Nelson de Souza Rodrigues, foi determinante para aguçar o olhar penetrante, profundo, para a realidade social, cultural e ambiental. Ele é um exímio fotógrafo e, por seu talento, aos 29 anos de idade foi contratado para trabalhar em um dos projetos culturais mais importantes desenvolvidos no Brasil no século 20, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz.

Primeiro e um dos mais consistentes projetos de produção cinematográfica brasileira em larga escala, a Vera Cruz foi fruto da parceria entre o produtor e diretor italiano Franco Zampari (1898-1966) e o industrial ítalo-brasileiro Francisco “Ciccillo” Matarazzo Sobrinho (1898-1977), que o havia convidado a vir ao Brasil em 1922, para trabalhar nas empresas da família. Engenheiro de profissão, Zampari havia fundado em 1948 o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e no ano seguinte iniciou com Matarazzo a aventura da Companhia Vera Cruz, que chegou a ter estúdios de 100 mil metros quadrados em São Bernardo do Campo. Antes de sediar um polo de automóveis, a cidade do ABC recebeu portanto um ambicioso complexo de produção cinematográfica, que durou poucos anos, até 1954, mas foi fundamental para sedimentar o sonho de uma filmografia legitimamente brasileira.

No dia 15 de julho de 1950, véspera portanto da fatídica final da Copa do Mundo da FIFA no Maracanã, onde o Brasil perderia por 2 a 1 para o Uruguai, Nelson de Souza Rodrigues era admitido na Companhia Vera Cruz, como mostra a sua carteira profissional. Foi contratado como “chefe fotógrafo”, com um salário de 5 mil cruzeiros mensais.

A lendária Ruth de Souza, que atuou em “Ângela” e “Terra é sempre terra” (Foto Acervo Pessoal Nelson de Souza Rodrigues)

O contrato durou pouco mais de um ano, terminando a 15 de agosto de 1951, mas foi tempo suficiente para uma intensa experiência profissional. “A época pós-guerra até aos meados da década de 1950 foi um período determinante para o cinema brasileiro: ainda tentando remediar o estigma que ficou da idade de ouro das chanchadas—filmes de baixo orçamento, produzidos em estúdios, e com enredos pouco convincentes—a ambiciosa meta da Vera Cruz era modernizar a indústria cinematográfica brasileira a fim de aperfeiçoar a qualidade técnica da produção tendo em vista um público internacional”, comenta Kathryn Bishop Sanchez, professora da Universidade de Wisconsin, Madison, nos Estados Unidos, e uma das principais referências acadêmicas sobre o cinema brasileiro no plano internacional.

A especialista lembra que Rodrigues chegou à Vera Cruz a convite do cineasta Alberto Cavalcanti. “A equipe à qual Nelson se associou era fundamentalmente cosmopolita, com técnicos e artistas da Inglaterra, Dinamarca, Alemanha, França e Europa Central, todos convidados por Cavalcanti que naquela época era o único diretor brasileiro com uma significativa projeção internacional”, nota Kathryn Sanchez.

Ela lamenta que “a experiência Vera Cruz—a última tentativa brasileira e até sul-americana de criar uma indústria cinematográfica à la Hollywood—foi um fracasso e a companhia declarou a falência após poucos anos de existência em 1954″, salientando, porém, que “no começo dos anos 50, a equipe à qual Nelson aderiu tinha como meta principal o desenvolvimento de um cinema brasileiro revitalizado”.

Sobre Nelson de Souza Rodrigues, Sanchez, que é editora-executiva da Luso-Brazilian Review e de “Performing Latin American and Caribbean Identities” Vanderbilt UP, assinala que, “fotógrafo talentoso”, cabia a ele “chefiar o laboratório fotográfico e com a sua lente documentar cenas dos filmes produzidos para conseguir matéria primordialmente para o registo das filmagens e que poderia servir para publicidade no momento de os filmes estrearem, isto é, posters nos corredores dos cinemas, ilustrações para artigos de revista ou de jornal, e ampliações fotográficas de até 7 por 10 metros para atrair futuros espectadores”.

A professora da Universidade de Wisconsin assinala que Nelson de Souza Rodrigues atuou nesta função durante a filmagem das três primeiros obras de ficção da Vera Cruz, o melodrama Caiçara (1950, de Adolfo Celi, que vinha do Teatro Brasileiro de Comédia, ou TBC), o muito premiado Terra é Sempre Terra (1951, de Tom Payne, baseado na peça Paiol Velho de Abílio Pereira de Almeida) e, por último, Ângela (também de 1951, de Abílio Pereira de Almeida em co-direção com Tom Payne).

Contrato assinado com a Vera Cruz, um dia antes da final da Copa do Mundo de 1950 (Foto Acervo Pessoal Nelson de Souza Rodrigues)

Kathryn Sanchez continua: “Nesta época, dadas as metas da Vera Cruz de ser um estúdio lucrativo com a última tecnologia, houve uma forte ligação entre o cinema e a cultura de consumo, e maior motivação para promover os filmes e as estrelas com máximo proveito para a companhia. As fotografias de Nelson, de registro de estilo estático—aquilo que a palavra em inglês “stills” bem implica—e as ampliações publicitárias, tinham de indicar o filme, o seu estilo e tom, e apresentar os protagonistas principais”.

Nos retratos e fotografias que perduraram até aos nossos dias, completa a especialista, “vemos em todos eles o cuidado artístico característico de Nelson, uma preocupação constante com jogos de luz e sombra, uma delicadeza em retratar expressões faciais, e um foco particular no olhar dos protagonistas. Essas fotos capturam muito mais que aquele instante: remetem para outros aspetos momentos antes e depois do quadro de registo, com olhares que seguem para além do campo visual da lente fotográfica”.

A professora Kathryn Sanchez destaca os “jogos de luz e sombra, uma delicadeza em retratar expressões faciais” utilizados por Rodrigues nos registros de filmes da Vera Cruz (Foto Acervo Pessoal Nelson de Souza Rodrigues)

Adolfo Celi, Abilio Pereira de Al