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Pesquisadores desenvolvem biocida a partir de resíduos de soja

Imagem: International Paint- Akzo Nobel; CALLOW, J.A. e CALLOW, M.E. Nature communications. n.244. (2011);

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveram, a partir de resíduos de soja, novos biocidas para controlar a bioincrustação marinha (ou de água doce), um processo natural de colonização e desenvolvimento de micro e macro-organismos aquáticos sobre superfícies mantidas submersas. Denominados tecnicamente de lisoglicerofosfocolinas (LGFs) e seus análogos O-alquilados (EGFs), os foram obtidos a partir das lecitinas de soja comerciais, um resíduo da produção de óleo comestível.

O foco principal dos pesquisadores é o combate ao mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), uma espécie invasora originária do sul da Ásia. É um bichinho é pequeno – não tem mais do que quatro centímetros -, mas é capaz de fazer um estrago considerável. Esse molusco de água doce chegou ao Brasil em 1998, como clandestino na água de lastro de navios vindos do Oriente.

Desde então ele vem se espalhando pelo país, infestando rios, lagos e reservatórios. “Ele está instalado nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e já foi inclusive detectado na Amazônia, na Usina Hidrelétrica de Belo Monte”, diz o pesquisador Cláudio Cerqueira Lopes, coordenador do Laboratório de Síntese e Análise de Produtos Estratégicos (Lasape), do Instituto de Química (IQ) da UFRJ, que liderou a pesquisa.

Além de desequilibrar os nichos ecológicos aos quais chegou, pondo em risco de extinção espécies nativas, o mexilhão-dourado ameaça o setor elétrico brasileiro, a agricultura irrigada, a pesca e o abastecimento de água. Com a capacidade de se incrustar em qualquer superfície submersa, como madeira, rocha, plástico e até vidro, essa espécie exótica está causando sérios problemas e prejuízos. “Ele pode se incrustar tanques de piscicultura e entupir os sistemas de refrigeração em usinas hidrelétricas, dutos de irrigação e de captação de águas dos rios para consumo”, explica Lopes.

O mexilhão-dourado se incrusta em cascos de navios. “A superfície submersa propicia uma colonização secundária derivada de esporos e larvas, originando crescimento dos macro-organismos e consolidando a bioincrustação”, informa o pesquisador. “Em geral, cascos de embarcação são superfícies com características condicionantes favoráveis a este processo.”

Segundo Lopes, com o tempo, o crescimento da camada incrustante gera grandes perdas financeiras como, o aumento do arrasto, o que sobrecarrega o motor da embarcação, diminuindo a velocidade de deslocamento e consequentemente aumentando o gasto com o combustível. “Além disso, há aumento da deterioração da superfície onde se encontra a crosta, obstrução de escapes e peças e risco ambiental da transferência de espécies invasoras, que vêm associada a crosta”, acrescenta.

Os biocidas foram desenvolvidos pelo Lasape em parceria com o Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira da Marinha do Brasil. Para avaliar a atividade deles contra a bioincrustação marinha, eles foram incorporados a uma tinta da empresa Akzo Nobel sem propriedades biocidas. “Testes realizados na baía de Guanabara revelaram a efetiva ação anti-incrustante da tinta”, conta Lopes. “Por isso, é uma promissora alternativa com conceitos da green chemistry (química verde) para combater a formação de cracas em embarcações civis, militares, dutos de gás e plataformas de petróleo.”

De acordo com ele, nos ensaios laboratoriais, realizados em comparação à ação alcançada pelo sulfato de cobre (CuSO4) (controle), os biocidas demonstraram causar uma significativa redução dos processos de crescimento de bactérias (80% de inibição relativa à conseguida pelo CuSO4, usando concentrações de 100 microg/L), e de microalgas marinhas (até 63% inibição acima daquela conseguida pelo CuSO4, usando concentrações de 300 microg/L).

Posteriormente, os biocidas foram testados em telas de piscicultura no combate ao processo de bioincrustação do mexilhão-dourado. Para isso, os pesquisadores misturaram os biocidas a uma tinha automotiva existente no mercado. “Oito redes metálicas de tanques de piscicultura com o tamanho de 30 cm x 30cm, foram revestidas com a tinta automotiva LAZZURIL (Sherwin-Williams), contendo os biocidas desenvolvidos por nós e mantidas no reservatório Chavantes, o quarto de um complexo de onze construídos no rio Paranapanema para fins de geração de energia elétrica, pelo Instituto de Pesca de São Paulo”, revela Lopes.

Após nove meses de submersão, as placas revestidas com os biocidas não apresentaram o processo de bioincrustação do mexilhão-dourado. “São resultados promissores, que estimulam o nosso grupo de pesquisa a continuar avaliando esses biocidas de revestimentos de ação anti-incrustante”, diz o pesquisador. “Eles podem tornar-se em uma ótima opção para serem utilizados como um produto biocida, com apelo de utilizar como matéria-prima uma substância natural, as lecitinas de soja, um resíduo da produção de óleo de soja, não competindo, portanto, com a produção de um alimento importante na dieta da população.”

 

Fonte: Blog da Química Verde, Evanildo da Silveira, 7 abril 2021 (https://blogdaquimicaverde.com.br/2021/04/07/pesquisadores-desenvolvem-biocida-a-partir-e-residuos-de-soja/)

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