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Sobre a reprodução em peixes II

Por: Sergio Luiz dos Santos Tutui e Marcelo Ricardo de Souza

 

Como vimos anteriormente, a reprodução é o processo pelo qual uma espécie mantém a sua renovação, de maneira ordenada e equilibrada, sem afetar o ambiente e as demais espécies. Ou seja, em um ambiente não impactado, o equilíbrio entre as espécies é fundamental, caso uma aumente de forma excessiva as demais serão afetadas, o ambiente mudaria e por fim a própria espécie. Desse modo, para a manutenção do equilibrio, um dos processos biológicos mais importante é a reprodução.

Em ambientes aquáticos, a estratégia reprodutiva de uma espécie depende das interações entre as características da própria espécie (fisiologia, genética, etc) e fatores externos, como por exemplo as relações com outros indivíduos da mesma espécie ou mesmo com outras espécies, características do ambiente (rio, lago, estuário, etc) e a qualidade deste. Tal “ajuste”, normalmente, é um processo lento e gradual pois não se trata apenas de alterações comportamentais, mas de alterações de padrões fisiológicos, morfológicos e de desenvolvimento.

Todo esse processo reflete também a forma como ocorre a reprodução, ou os mecanismos reprodutivos. Grande parte dos peixes apresenta indivíduos do gênero masculino e feminino, porém há espécies hermafroditas (ovário e  testículo ocorrendo no mesmo indivíduo), podendo ocorrer ao mesmo tempo, ser testículo e depois se transformar em ovário ou vice e versa.

Se considerarmos que a reprodução e o crescimento competem pela energia e por nutrientes adquiridos por meio da alimentação, existem espécies que tendem a alocar mais recursos para a reprodução: apresentam tamanho do corpo e ovócitos pequenos, maior número de filhotes, sem cuidado parental, desova em um único momento, etc. Por outro lado, existem espécies que alocam mais recursos para o crescimento, apresentando tamanho do corpo e ovócitos grandes, menor número de descendentes, pais cuidando das crias, desovas parceladas, etc.

Outras táticas reprodutivas estão relacionadas ao cuidado com a prole, podendo ser classificados como não-guardadores ou guardadores, cuidando das mais variadas formas como em substratos específicos como rochas, cascalhos, dentro de cavidades, ninhos construídos ou improvisados,entre outras. Algumas espécies apresentam também caracteres sexuais secundários, como forma e tamanho do corpo, presença de papilas genitais, tubérculos nupiciais, modificações da nadadeira funcionando como órgão copulador e coloração.

Na Ciência Biológica existe uma teoria que propõe que as variações do ambiente ao longo do tempo influenciam o comportamento dos indivíduos, sua fisologia e demais características. Com isso, o ambiente é o ponto de partida que define as pressões evolutivas que dão forma à estratégia ecológica de uma espécie. Por outro lado, outra teoria diz que a genética de uma espécie age como limitador às variações do comportamento dos indivíduos, sua fisiologia e demais características. Para essa segunda teoria, são as restriçoes genéticas que afetam o desenvolvimento das estratégias para lidar com diferentes tipos de ambientes. Assim, uma teoria prega que o ambiente é o responsavel pela evolução e definição das estratégias de vida (incluindo a reprodução) enquanto que a outra teoria condiciona essas estratégias às características genéticas e populacionais da espécie.

Inúmeros trabalhos consideram que ambas as abordagens estão corretas, considerando que cada uma delas pode ter maior ou menor influência na evolução das estratégias reprodutivas e suas adaptações. Assim, é possível explicar o sucesso que os peixes tiveram nos mais diferentes tipos de ambientes aquáticos, ocupando desde altitudes como a cordilheira dos Andes até regiões abissais oceânicas a 11.000 metros de profundidade; de rios subterrâneos, em cavernas, até em pequenas lagoas que ocorrem em curto período do ano, no meio de desertos. Por conta desta diversidade de possibilidades, os peixes foram se diferenciando e cada espécie adquiriu características próprias ou compartilhadas com o grupo em que vivem.

Observa-se, então, que os peixes são um grupo de grande plasticidade, e, como visto acima, tal característica pode permitir que a população responda a qualquer desequilibrio ambiental, existindo muitas características ligadas à reprodução que podem ser mais ou menos otimizadas, conforme as pressões do meio externo. Sendo assim, a partir do momento em que ocorre algum desequilibrio no ambiente, quer seja por desastre natural, quer seja pelo homem, por meio da degradação ambiental, pesca ou de outro fator, a comunidade pode passar por um ajuste a fim de compensar esse desequilibrio. Porém, as características genéticas da população afetada permite que os indivíduos respondam até um certo grau de perturbação e, dependendo da intensidade da alteração, a espécie pode não ter condições de conseguir se adaptar a tempo, podendo desaparecer.

Por tanto, entender a resiliência (capacidade de voltar ao seu estado natural) de uma espécie à eventos que desequilibram sua população (a pesca por exemplo) é um dos motivos de se estudar a reprodução de peixes. Além disso, o tamanho que determina a maturidade sexual é outra característica relacionada às táticas reprodutivas, podendo variar consideravelmente entre diferentes espécies, populações de uma mesma espécie e até mesmo indivíduos dentro de uma mesma população. Normalmente existe uma faixa de tamanho em que os indivíduos se tornam “adultos”, por isso nos estudos de reprodução se calcula o comprimento em que pelo menos 50% dos indivíduos já possam se reproduzir. Com isso, para a pesca, a determinação desse comprimento é fundamental para definir o tamanho mínimo de captura, como estratégia de preservação das espécies e das pescarias.

Nos próximos artigos iremos falar um pouco mais sobre a reprodução em peixes abordando as formas de estudo e como as informações podem ser utilizadas na gestão pesqueira.

Conheça mais sobre o Instituto de Pesca, acessando ao site www.pesca.sp.gov.br. Criado em 8 de abril de 1969, desenvolve pesquisas sobre ecossistemas aquáticos; biologia, pesca e aquicultura de organismos marinhos e continentais e tecnologia de processamento de pescados.

 

Fonte: Jornal Nippak, Set/2017 (http://www.portalnikkei.com.br)
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